Como sempre estava atrasada. Na verdade pela tarde nunca tinha uma hora definida para nada, nem para almoçar, nem para chegar aonde trabalhava, o único tempo definido era o de estar na faculdade, mas até então estava de férias e desde então acordava sempre tarde e isto lhe fazia se sentir sempre atrasada.
Parou no farol olhando pro chão pintado de listrado, não pensava em nada além da culpa por estar passando ali sempre tão tarde nos últimos dias e as cores do semáforo pintavam-se de verde na frente de seus olhos.
Atravessou distraída a ponto de quase esbarrar num senhor que gritava desesperado com uma bíblia aberta na mão, sua voz quebrou seus pensamentos vagos e fez prestar atenção em toda aquela confusão. O senhor gritava e agitava fortemente os braços, suas palavras eram sobre os vícios humanos e sua necessidade exterior pelos mesmos, segundo ele: pessoas acham normal procurarem cigarros, bebidas, mulheres, voltarem para casa, acordarem sozinhos e recomeçarem um novo dia a caça dos mesmos, poucos são aqueles que pensam em satisfazer seus sentimentos ao invés de sua carne. Ela deu a volta em torno do homem e continuou a caminhar, ria sozinha pois aquelas palavras a tocaram no fundo. Não, não se sentia tentada a voltar e se converter a religião daquele homem, nem tão pouco pensou em parar de fumar ou beber ou pensou em alguma critica aos boêmios da noite que passam seu melhor perfume em busca de mulheres fáceis para se divertir por uma noite. Ela pensou em si mesmo, como a muito tempo não havia feito, pensou em como as vezes se sentia estranha por não procurar as mesmas coisas, afinal para ela o cigarro poderia ser facilmente descartável e a bebida rolava sempre socialmente, além do sexo que descobriu poder ficar sem e já ficara muito tempo sem te-lo mesmo estando comprometida, mas sentiu-se feliz naquele momento por se encaixar numa resposta tão obvia: cuidava e alimentava não a carne, mas seus sentimentos.
Era fácil e ao mesmo tempo complicado pensar naquilo, tentava organizar e explicar a si mesmo sua própria teoria. Vivia por sentimento, sim, disto sabia… sentia-se envergonhada de quando as pessoas riam dela por não manter uma coleção de relações passageiras, mas o que ninguém sabia era a intensidade que sentia as coisas. Não, não pensava na palavra sentimento ligado a palavra amor, ou relacionamento carnal com as pessoas, via sentimento na forma que olhava o sol quando acordava e de como adorava sair durante a noite para as baladas mais movimentadas e curtir com os amigos, até mesmo aproveitava para ver a lua e admira-la parada com seu cigarro na área externa de fumantes. Bebia por que gostava de ver as cores com mais intensidade, era assim… primeiro as cores, depois as pessoas, e assim deixava muitas pessoas para trás, como os homens em busca de diversão que passavam se esfregando e se oferecendo a ela.
Sentiu orgulho de si, aceitava todos como eram, seus vícios, necessitadas, sentimentos e podia aceitar a si como era… poderia não relacionar-se com as pessoas de uma forma canal, mas se relacionava com total sentimento a vida, e era isso que se importava.
E assim começara a se entender cada vez mais enquanto caminhava mais decidida do que nunca.

One Response to “”

  1. incrível como a palavra alheia afeta a quem dá ouvidos. por vezes caminhar ouvindo a conversa de alguém que fala um tanto quanto alto se torna interessante, especialmente se tiver conteúdo. não faço isso por costume, apenas acontece enquanto passo pelas pessoas em meu andar sempre apressado.mas muito bacana é se entender com a palavra dos outros. isso acelera todo o processo interno.

Em busca de respostas? Eu também, então deixe seu comentário, opinião ou sugestão que lerei com muito carinho

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