Ela pegou a alça da velha bolsa de zebra e ganhou a rua, era o que costumava fazer quando se sentia perdida em si mesmo ou quando sentia que seu coração voltava a bater, andar lhe fazia conversar com sigo e naquele momento era o que mais precisava. Conversas interiores e cigarros, era isso o que necessitava, nada mais… nem telefonemas, nem internet, nem pessoas… principalmente pessoas, não agora que tudo parecia confuso.
Era estranho para ela que costumava andar em busca de pessoas, não da conversa delas, ou dos olhares dos homens desconhecidos que a desejavam na rua e despejavam baixo pequenas provocações e insinuações, não, ela gostava da companhia das pessoas, de observar seus passos, suas manias, pequenos robôs vivendo no formigueiro… gostava de ver como era diferente de tudo aquilo e como ao mesmo tempo amava tudo tão intensamente, mas naquele noite nada disso importava, apenas o que estava dentro de si tinha valor, nunca soube quem era ou por que se sentia perdida tão constantemente, mas sempre sabia no fundo o que a incomodava.
Chovia mas não abriu o guarda chuva, gostava da sensação que as gotas causavam ao tocar seu rosto, não importava se alguma delas apagavam a brasa de seu cigarro, poderia levar o esqueiro mil vezes a boca só para ter o que fazer com as mãos. Ter o que fazer, era o que procurava neste instante, tinha medo de ficar sozinha com os pensamentos e o que continha neles e assim procurava se distrair com tudo ao seu redor, chutava pedras no chão, acendia cigarros, contava silenciosamente estórias e logo em seguida cantarolava pequenas musicas para apagar da mente o rumo que elas tomavam.

“Here comes the rain again-
Falling on my head like a memory,
Falling on my head like a new emotion.
I want to walk in the open wind.
I want to talk like lovers do”

Cantava enquanto caminhava sem saber pra onde ou com qual finalidade, só queria andar, olhando esporadicamente para o relógio em busca das horas mesmo que não importasse quanto tempo havia passado, o que importava era não estar em casa e não ter que sentar-se na mesma cadeira, ligar a tv, tomar um banho e deitar-se sozinha na cama, disto fugia como da própria morte.
Geralmente não se achava bonita, odiava-se no espelho todas as manhãs ao acordar, herança de amores não correspondidos na infância que deixaram seqüelas simples, mais profundas, porém naquele momento em que a chuva e o inverno tornava sua pele fria sentia-se bela de uma forma incomum e sentia que as pessoas ao redor notavam isso, quando passavam ao seu lado com olhos atrelados de quem pergunta silenciosamente para onde ela ia, de onde ela veio… sentia-se bem assim, com a frieza e a aparência errônea a qual nos últimos anos atribuíram a ela, era triste mas ao mesmo tempo a seduzia saber que podia esconder tão bem seu coração a ponto de parecer uma boneca sem sentimentos.
Lembrou-se de uma conversa com uma amiga de trabalho sobre sentimentos naquela tarde, uma daquelas conversas que começam com uma pergunta afiada como uma faca e obviamente espera-se que acabe com alguma coisa partida. Sua amiga recomendava sempre esperar a vida sem emoções, sem sentimentos e descartando as pessoas que podem aproximar-se de ti a ponto de fazer você querer estar com elas mais de uma única vez, não era maldade, talvez fosse mais um produto da desilusão, criado para ligar-se ao automático em autodefesa, mas esta voz amiga e protetora ecoava como se acreditasse na regra “sem vida, sem amor, sem perda….” era isso que recomendava a fazer, corra, não fique esperando tudo ficar sempre do jeito que está, não fique esperando alguém te machucar ou você não ter mais coragem de ir embora sempre querendo ficar, não faça isso, não faça aquilo, faça isso, faça aquilo…
Então ela pegou a velha bolsa de zebra e saiu andando pelas ruas, para sentir que poderia não ter um coração, ou acabar com o que restava dele…. sozinha, como sempre, como estava destinada.

…. CONTINUA
(um dia)

Em busca de respostas? Eu também, então deixe seu comentário, opinião ou sugestão que lerei com muito carinho

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